segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Fruto proibido

Sou muito exigente quanto a maçãs e um tanto quanto desleixada com os saquinhos plásticos - confesso.
Minha mãe sempre me manda pegar as frutas, e, sabe... Laranja, mamão, manga, vai... Mas a maçã... Ela precisa ser fuji, a gala é insossa e, dentre a que eu escolher, pego as mais feinhas, são as com menos fertilizantes e as mais saborosas e doces. Eu devo perder uma boa meia hora lá, em frente a plaquinha de preço por quilo, procurando maçãs, tiro todas e pego as do fundo, ou não. Procuro as mais 'menos bonitas' e parece um processo sagrado esse procura-e-acha de fruta. Escolhidas, eu sorrio.
Chegando em casa: nada de cuidados. Rasgo plastiquinho por plastiquinho com prazer, sem dó. Eles depois fazem falta, são também sacos de lixo, são mais práticos. Mas na hora de desfazer os nós, tirar as frutas, dobrá-los... Cadê a praticidade?
Então fico assim: com muitas maçãs e nenhum plástico.
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quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Cinco letras.

Ela sorri. Ela nasce. Ela fala que fala, e ri.
Ela cai e levanta.
Ela sorri.
Fala, fala, nasce e ri.
Julia:
Julia Maria,
Julia prima,
Julia irmã.
Julia essa amiga.
Pré disposta, pró ativa.
O futuro a Deus pertence.
E ela ali... não se importa: sorri.
Chuva, sol, chuva e tempestade.
Sempre ali.
Julia:
Julia Maria,
Julia prima,
Julia irmã.
Julia essa amiga.
Você pensa que conhece,
o mundo que lhe entorna, e daí...
Nada como uma Julia.
Julia que canta, e que dança e que brinca.
Que não faz nada: é criança!
Julia:
Julia de pai, Julia de mãe e Julia de fé.
Ela sabe da vida, ou não:
só imagina como é.
Ela canta, ela dança e ela brinca.
E eu olho.
Ela cresce.
Eu já cresci.
Julia:
Julia Maria,
Julia prima,
Julia irmã.
Julia essa amiga.
Ela sorri. Ela nasce. Ela fala que fala, e ri.
Ela cai e levanta.
Ela sorri.
Fala, fala, nasce e ri.
Julia ao lado, Julia aqui.

sábado, 13 de novembro de 2010

Sem sinal.

Tenho medo de ser petulante, de morrer sozinha e perder meus amigos - que nem sei se tenho. Talvez eles já tenham ido e eu nem tenha me dado conta, talvez eu não me dê conta de nada.
Minha mãe dormiu e isso é sinal de que não vamos mais ao cinema, não vamos fazer nada. Há cinco dias que não saio daqui a não ser para ir ao colégio. Colégio... Colégio... Colégio me mata, me cansa. Gente falsa igual. Sorrisos falsos iguais e assuntos falsos do mesmo modo.
Eu devo estar passando por uma crise de identidade, ou coisa do gênero: nada me afeta, nada me surpreende: O mundo é uma coisa a parte, uma televisão ligada e eu só assisto, zapeando sem parar: procurando algo que preste e não me contentando. Nada presta.
Quer saber? Desligo a TV.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Máquina de clonagem, vulgo: MUNDO

Loira, olhos azuis e corpo desenhado. Sorriso com os dentes a mostra, todos eles brancos e impecavelmente retos. Roupas de última moda, seguindo tendências. Cílios estendidos, olhos contornados, bocas desenhadas, bochechas avermelhadas e imperfeições corrigidas.
- Ei, você!
- Eu?
- Eu? - várias exclamações em coro - Eu?
- Não, você aí: loira, olhos azuis, salto alto.
- Eu?
- Eu? - de nada adianta, todas olham: são iguais.
É uma ditadura, e sempre será assim, a única coisa são os cabelos lisos que podem ser ondulados e as bolsas pequenas que na próxima temporada serão sacos.
Eu quero renovar, raspar a cabeça e entrar em uma trupe de teatro, quero usar outras roupas, matar o cor-de-rosa. Quem sabe eu ande por aí com um nariz de palhaço - inovação - ou auto afirmação.
Mas... Se... Se eu tentar ser, ou melhor: não ser... Ser outra coisa e não ser o que todos são. Eu vou estar sendo o que alguém já é. O que alguém já teve a idéia. A originalidade acabou, tudo já foi experimentado e eu esperei, perdi minha chance.
- Ei, você! - alguém grita.
- Eu? - eu e mais várias garotas respondemos.
- Não, você aí: a loira, olhos azuis, salto alto.
- Eu? - Nós repetimos. E tudo continua igual, ninguém quer saber quem é quem, ninguém se importa. Clones influenciáveis. A Lady Gaga não faz nada que a Madonna já não tenha feito e a Miley não supera nenhuma Britney Spears. A vida é assim, você não vai ser melhor, você só é... Só é... Igual.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Falta inocência e sobra bom senso.

Eu acho tão divertido esse negócio de amizade "eterna".
Mais divertido ainda seria se existisse.

terça-feira, 9 de novembro de 2010

Divagância louca.

- Eu não gosto de gente.
- Você é gay?
- Eu não disse que não gosto de mulher, é uma coisa geral.
- Tem louco pra tudo... Gosta do que então?
- De música.
- E quem faz as músicas?
- Gosto de filmes também.
- E quem os faz?
- Mas eu não ligo. Eu gosto das coisas por si, e não por quem as fez, que as faz e quem as fará.
- Impossível.
- Eu quero fazer músicas e filmes.
- Porque?
- É muita hipocrisia eu só gostar de mim.
- Você gosta de você?
- Sim.
- Mas você não gosta de gente.
- Sim.
- E...
- Por isso hipocrisia, eu chego a me enganar.
- E porque fazer filmes?
- Não gosto de quem faz filmes, não gostaria de mim.
- Mas você não gosta de gente - em um plano geral - e gosta de você. Vai ser igual com os cineastas.
- Não.
- Como você sabe?
- Eu não sei. Mas eu quero fazer filmes.
- Faça.
- Não é fácil. Eu preciso de uma história.
- É, é verdade. Pensa em alguma?
- Não.
- Mas afinal, porque não gosta de quem faz os filmes?
- Também não gosto de quem faz as músicas.
- Sim, porque?
- Você gosta?
- Sim.
- Eles estragam as histórias originais, eles iludem, eles cortam, eles magoam, eles mentem.
- E você quer isso?
- Quero não gostar de gente. Em um plano geral.
- Faça filmes.
- Eu quero.
- Eu sei.
- É difícil, preciso de uma história.
- Eu lhe faço uma.
- Ela é boa?
- Muito.
- Que bom! É mais fácil de estragá-la.
- Porque estragá-la?
- Para ser igual aos outros, pra me odiar.

sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Benção.

O barquinho de papel flutuava no superfície de uma poça, esquecido.
- A chuva parou.
- Fique mais um pouco aqui.
- Mas mamãe... Eu quero fazer brincadeiras...
- Você pode pegar uma pneumonia.
- Não, eu posso brincar.
- Não filho, por favor...

Depois de uma segunda chuva, no mesmo mês, ninguém esquecera barquinho nenhum, eles nem ao menos foram feitos.
- Vou sair.
- Mas mamãe, está chovendo.
- É exatamente isso que eu preciso.
- Uma pneumonia?
- Não, lavar a alma.